Raio-X do Consumo no Morro do Alemão

morro_do_alemao_pacificadoJovens com baixa qualificação profissional são maioria, mas idosos e aposentados movimentam a economia local

Cerca de 40% dos moradores do Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, são jovens de periferia, porém idosos e aposentados detêm quase 40% do potencial de consumo. Estudo foi apresentado pelo Mosaic Brasil, produto da Serasa Experian que permite traçar raio-X da sociedade. Para a socióloga Cristina Panella, da USP, a falta de perspectivas pode levar jovens à marginalidade e comprometer as ações pacificadoras efetivadas no Morro do Alemão.

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Antes conhecido pela violência, o Complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro, tornou-se centro das atenções mundiais após a pacificação da comunidade, em novembro do ano passado. Porém, as estatísticas do Mosaic Brasil, produto da Serasa Experian que tem o objetivo de analisar a sociedade em função da renda, geografia, demografia, padrões comportamentais e estilo de vida, organizando a população em 10 grupos e 39 segmentos – mostram que, nessa comunidade, a população de jovens com baixa qualificação profissional e sem incentivos para a educação representa 37% do total de habitantes. Trata-se do grupo Periferia Jovem, que, no país, responde por 21% da população. Na cidade do Rio de Janeiro essa fatia social representa menos de 18%.

O grupo Periferia Jovem é subdividido em seis segmentos, sendo que, no Morro do Alemão, a maior concentração está no segmento Trabalhadores de Baixa Qualificação, com 13,28% do total. Esse segmento é composto por maioria masculina (62%) de trabalhadores com empregos formais, porém, com baixa renda e precária capacitação profissional. Para se ter uma ideia de como esse segmento é representativo quando se trata dessa comunidade, no Rio de Janeiro, apenas 6,21% da população da cidade é classificada como Trabalhadores de Baixa Qualificação, enquanto no Brasil esse percentual é ainda menor: 4,68%.

“Trata-se de uma maioria empobrecida e sem perspectivas”, analisa a professora e doutora em Sociologia, Cristina Panella, que integrou a equipe de acadêmicos da USP formada para a criação do Mosaic Brasil. “Esse cenário limítrofe é propício para levar os jovens à marginalidade, ainda mais se levarmos em conta a realidade recente dessas pessoas, quando a criminalidade era presença constante no dia a dia das ruas do complexo.” Segundo a professora, os investimentos do Governo e de ONGs na educação profissionalizante, por exemplo, são fundamentais para que o trabalho de pacificação não se perca. “Se por um lado vemos nessa comunidade uma maioria de jovens empobrecida, por outro, podemos olhar para essas pessoas e ver um caldo de cultura que precisa apenas de oportunidade para virar a própria mesa.” Para Cristina, o raio-X do Mosaic Brasil aponta para a necessidade concentrada de investimentos em campanhas e ações direcionadas à educação formal, reciclagem profissional e toda a sorte de iniciativas que tenham por público-alvo esses jovens.

teleferico_morro_do_alemãoA inauguração do teleférico, em julho, foi um passo importante no sentido de integrar o complexo ao restante da cidade. Esse sistema de transporte interliga cinco morros do Complexo do Alemão, facilitando o acesso dos jovens aos bens culturais da cidade ao mesmo tempo em que amplia geograficamente o raio para a busca de um trabalho formal, tornando mais fácil a vida dessa uma maioria, que necessita de deslocamentos constantes para ganhar seu sustento.

Outro dado interessante do grupo Periferia Jovem é que, diferentemente do que se poderia supor, a comunidade não reúne um número significativo de pessoas no segmento Famílias Assistidas na Periferia. Do total da amostra da comunidade, 47.246 pessoas, apenas 79 se enquadram nessa categoria.

Olho clínico

Entre as funções do Mosaic Brasil está a apresentação de informações demográficas que, a olho nu, passariam despercebidas. A segunda maior concentração de pessoas do Complexo do Alemão compõe o grupo Aposentadoria Tranquila. O grupo reúne 21,27% dos moradores da comunidade, enquanto na capital fluminense as pessoas pertencentes a esse grupo somam 18%. “Porém, a maioria (15,7%) dos componentes do grupo Aposentadoria Tranquila vivendo no Complexo do Alemão está enquadrada no segmento Aposentadoria sem Conforto, caracterizado por aposentados de áreas urbanas periféricas, com renda modesta, apenas suficiente para as despesas essenciais”, explica o economista da Serasa Experian, Luiz Rabi. São 7.435 pessoas vivendo nessas condições. Para se ter uma ideia da disparidade, em toda a cidade, apenas 7,26% dos moradores estão classificados nesse segmento.

Outro dado socioeconômico preocupante mostra que, apesar de a terceira maior população do Complexo do Alemão estar qualificada no Grupo Assalariados Urbanos, com 17,7% do total, a grande maioria (16,32%) pertence ao segmento menos privilegiado deste grupo: Vida no Aperto. Aqui estão adultos jovens e maduros, com pouco tempo de residência no local e que ocupam cargos para os quais não é necessária muita qualificação. No Brasil, 2,74% da população está enquadrada nesse segmento, enquanto no Rio de Janeiro, 14,91%.

O crescimento da classe C no país chama a atenção de todos. Mas um erro comum, no entanto, é acreditar que se trata de um grupo uniforme de pessoas. Não há um estereótipo único que permita entender os desejos, anseios e necessidades desta camada da população. O Mosaic é usado em muitos países do mundo para aprofundar o entendimento da sociedade e permitir que os produtos, serviços e políticas publicas sejam mais efetivos”, aponta Juliano Marcilio, Presidente de Marketing Services da Serasa Experian e Experian América Latina.

Potencial de Consumo

Embora os jovens com baixa qualificação profissional sejam o maior grupo populacional do Morro do Alemão, são os idosos e aposentados que detêm o maior potencial de consumo daquela comunidade. Os grupos Aposentadoria Tranquila e Envelhecendo na Periferia detêm 37,1% do potencial de consumo, ao passo que Periferia Jovem representa 30,2% do potencial de consumo do Morro do Alemão. Isto demonstra que a economia da região é ainda bastante dependente da evolução do rendimento das pessoas mais idosas, que vivem, basicamente, em função de suas aposentadorias.

Os financiamentos bancários são itens de consumo mais procurados pelos moradores do Complexo do Alemão: 41,5% das consultas de CPFs às bases da Serasa Experian no período de janeiro a outubro de 2011 foram efetuadas por bancos e financeiras. Em seguida, vieram as consultas de empresas de telefonia (24,0% do total de consultas), das empresas de serviços (15,1%) e do varejo (8,6%).

Todavia, estas incidências não são homogêneas dentre os grupos sociais que constituem a localidade. Por exemplo, a busca por financiamentos bancários é bem maior nos grupos sociais mais maduros. Assim, nos grupos Aposentadoria Tranquila e Envelhecendo na Periferia, grupos que detêm o maior potencial de consumo, as consultas efetuadas pelos bancos e financeiras representaram 48,8% e 47,2%, respectivamente, do total de consultas relativas a estes grupos sociais.

Já nos grupo Periferia Jovem, que constitui o segundo maior potencial de consumo da região, as consultas de bancos e financeiras caem para 39,9% do total, perdendo terreno para as consultas de empresas de telefonia, as quais sobem para 26,4%. É importante notar que, em alguns subgrupos da Periferia Jovem, as consultas de empresas de telefonia praticamente se igualam (ou ficam muito próxima) das consultas dos bancos e financeiras. É o caso de Excluídos do Sistema (37,8% para bancos e financeiras e 35,2% para telefonia), Estudantes da Periferia (31,8% para bancos e financeiras e 29,1% para telefonia) e Famílias Assistidas da Periferia (40,2% para bancos e financeiras e 38,4% para telefonia).

Inadimplência

A inadimplência dos habitantes do Complexo do Alemão é elevada. Em outubro de 2011, 31,9% dos moradores da localidade estavam com algum registro de inadimplemento anotado nas bases restritivas da Serasa Experian. O grupo Aspirantes Sociais detinha o maior nível de inadimplência: 67,1% dos seus componentes se encontraram com dívidas vencidas e não pagas em outubro deste ano1. Em seguida, aparecem os grupos Periferia Jovem (46,1% de inadimplentes) e Assalariados Urbanos (44,9% de inadimplentes).

Os menores níveis de inadimplência foram registrados pelos grupos mais maduros: 29,7% das pessoas que compõem o grupo Envelhecendo na Periferia e apenas 3,4% de inadimplentes no grupo Aposentadoria Tranquila.

 

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