O sonho da carreira no exterior ficou mais longe

Enquanto a economia global crescia a todo vapor na década de 90, havia uma forte expectativa dos executivos brasileiros de que aumentariam cada vez mais as chances de uma carreira internacional. De fato, surgiam com maior frequência novas oportunidades para os profissionais no exterior, oferecidas não só pelas multinacionais que atuavam no País, como também pelas organizações brasileiras que começavam a ter maior presença lá fora.

A crise global de 2008 veio arrefecer essa expectativa. Agora, com o agravamento da crise nos Estados Unidos, que cresce abaixo das expectativas, e na zona do euro, a expatriação de executivos brasileiros torna-se mais difícil.
Soma-se a esses fatores o fato de que a economia brasileira, mesmo sofrendo alguns impactos das turbulências internacionais, está num processo virtuoso de crescimento e expandindo o mercado interno, o que tem provocado o que se convencionou chamar de apagão de talentos. Ora, se faltam talentos no Brasil, por que as empresas aumentariam as expatriações?
        
Além disso, inúmeras pesquisas têm demonstrado que os salários dos executivos no Brasil já superam a remuneração paga nos Estados Unidos e outros países. Segundo pesquisa da Towers Watson, os salários dos executivos brasileiros cresceram em torno de 20% de 2006 a 2010, enquanto seus pares norte-americanos tiveram reajustes de cerca de 10% no mesmo período. Considerando-se a remuneração em dólar, a evolução dos salários foi ainda maior, em torno de 50%, resultado da variação cambial positiva do real em comparação com a moeda americana. O levantamento constatou que, em muitos casos, o subordinado de um alto executivo no Brasil ganha mais que seu chefe imediato europeu ou norte-americano.
        
A escassez de talentos e os salários mais atraentes no Brasil têm diminuído a volúpia dos executivos brasileiros por uma carreira no exterior. Mais do que isso, existe uma movimentação inversa: profissionais expatriados há mais tempo sonham em retornar ao Brasil, ao mesmo tempo em que o País torna-se mais atraente para executivos estrangeiros que gostariam de se mudar com mala e cuia para cá.
        
O crescimento da economia e do mercado interno, por sua vez, impõem  às empresas brasileiras o desafio de reter, contratar, treinar e, o que está ocorrendo com freqüência, repatriar talentos. Como a Imprensa há muito tem noticiado, faltam profissionais qualificados praticamente em todos os setores da economia e em grande parte das especializações e funções.
        
Isso não significa que as empresas deverão deixar de expatriar executivos, já que essa prática faz parte da dinâmica da globalização. Ao se instalar em algum país, a empresa precisa implantar no escritório e na fábrica no exterior a sua identidade e cultura organizacional, seus processos e práticas empresariais, razão pela qual precisa enviar algumas de suas lideranças para cumprir essas tarefas. Muitas vezes, organizações brasileiras enviam executivos ao exterior apenas para treinar as lideranças locais e retornarem ao País. Nesse caso, o profissional não fará verdadeiramente uma carreira no exterior e nem terá, muitas vezes, uma promoção. 
        
Do outro lado da moeda, com suas economias fragilizadas e, portanto, com o aumento do desemprego, Estados Unidos e países europeus tenderão a refrear a busca de talentos em outros locais.
        
A economia, como tudo na vida, é dinâmica e a situação pode mudar.  Mas grande parte dos executivos brasileiros sabe que, no momento, o Brasil oferece melhores oportunidades, tanto em remuneração como em desenvolvimento profissional. Por isso, arquivam seus projetos de se mandar para fora.
Marcelo Mariaca é presidente do Conselho de Sócios da Mariaca e professor da Brazilian Business School.

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Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.