Atrair investimentos de qualidade deve ser nossa meta

Se estivéssemos em 1980 e algum vidente nos contasse que, em menos de três décadas, o governo brasileiro estaria em luta contra a valorização excessiva da moeda nacional, ficaríamos incrédulos. Mas é exatamente isso que está acontecendo agora. A percepção do Brasil como um dos países mais promissores do cenário atual vem aumentando o interesse dos investidores estrangeiros pelos títulos brasileiros, que pagam juros mais altos que os do mercado internacional. Esses investidores também se beneficiam com a variação cambial, em virtude da apreciação do real ante o dólar.

Quem viaja para o exterior ou importa insumos e máquinas se dá bem quando há um barateamento do dólar. Mas a alegria do importador é o pesadelo de quem faz o inverso: com o real valorizado, os produtos brasileiros tendem a parecer mais “caros” do que os dos países concorrentes, o que prejudica a nossa competitividade como exportadores. Além disso, existe o risco de surgir uma apreciação baseada em falsas premissas – a chamada “bolha” -, abrindo o flanco do País para os especuladores, que injetam e retiram capitais ao sabor das ondas do mercado.

Para evitar que o dinheiro da especulação venha macular a solidez econômica do País, o governo brasileiro optou por inibir a entrada de dólares por meio de tributação. Desde o mês de outubro, uma taxa de 2% incide sobre as operações financeiras feitas com dinheiro estrangeiro.

A medida, que muitos profissionais do mercado financeiro temeram ser “ortodoxa demais”, provou-se insuficiente, o que obriga a equipe econômica do governo a estudar opções mais eficazes para conter a entrada de dólares.

Entre as possibilidades, incluem-se: a retomada das emissões, no exterior, dos títulos da dívida pública em reais; a autorização para que os bancos brasileiros emitam debêntures, que vencem em longo prazo (a intenção é substituir os CDBs, que podem ser resgatados diariamente); e a autorização para que os investidores possam realizar depósitos fora do país. Além disso, atendendo a uma reivindicação da própria Bovespa, os investidores estrangeiros que operam no mercado futuro terão a opção de depositar suas garantias em dólar numa conta da Bolsa no exterior (atualmente, eles são forçados a trocar o valor das garantias por reais, que são depositados aqui).

As medidas são boas. É hora de apertar o cerco contra a especulação, para atrair investidores de qualidade. O que interessa é ter gente que efetivamente acredita no País, que queira manter negócios por aqui. Para as empresas nacionais, a recomendação é estudar bem os investimentos que serão feitos e buscar o apoio de especialistas, principalmente para rever processos e otimizar seu desempenho e sua produtividade.

Com o envolvimento de todos os segmentos da sociedade, poderemos, de fato, nos tornar a quinta economia do mundo.

Marcelo Gonçalves é sócio-diretor da BDO, quinta maior empresa do mundo em auditoria, advisory e tax. Atua como responsável pelo escritório de S. José dos Campos.


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Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.