A deficiência sopra ao seu ouvido, todos os dias

Hoje, 3 de dezembro, se comemora o Dia da Pessoa com Deficiência. Não quero mais uma vez repetir os números, estatísticas e percentuais que mostram tão bem a dimensão e seriedade da discussão em torno do preconceito, da acessibilidade e da inclusão social destas pessoas. Também não vou usar o exemplo de algum amigo para demonstrar a superação ou o desejo de viver.

Esta manhã, lembrei do trecho de um discurso da Célia Leão, no Rio de Janeiro, há alguns anos e que sempre me fez refletir. Ela dizia entre outras coisas que “entende um branco não se atentar para a questão do preconceito racial, pois é um tema que parece distante da sua realidade. Ela entende que o morador de uma grande cidade não se atente para as questões do meio ambiente, porque também parecem distantes. Entende que o jovem urbano não se interesse pela causa dos índios, pois também não faz parte do seu dia-a-dia. Mas e quanto a causa das pessoas com deficiência?”

Este questionamento sempre me chamou a atenção porque a deficiência não escolhe sexo, classe social, cor, raça ou religião. Atinge pobres e ricos,aliás nos últimos anos tem atingido em cheio os jovens ricos que parecem não conhecer os limites e perigos do trânsito. Mas, enfim, a deficiência está sempre soprando aos ouvidos de todos nós, quando atravessamos as ruas movimentadas, quando um motoboy decide que pode ser ainda mais rápido, quando o executivo bem sucedido dá um carro esporte de presente ao filho ou simplesmente quando escorregamos no último degrau da escada.

A possibilidade de ganhar uma deficiência está sempre presente, no modo como envelhecemos, vivemos, trabalhamos. O risco sempre nos acompanha.

Mas fingimos não perceber, da mesma maneira que fingimos não perceber a pessoa com deficiência. Outro dia, um diretor de RH encarregado de preencher as vagas da Lei de Cotas me dizia que não tem preconceito algum, perguntei então se ao receber os candidatos ele os cumprimentava com um aperto de mão. “Claro que não” foi a resposta de bate pronto. Não foi preciso dizer mais nada, aquela empresa nunca vai cumprir a Lei de Cotas, vai continuar inventando desculpas e pagando as multas impostas pelo Ministério do Trabalho.

O dia de hoje convida a uma reflexão, sugere que você encontre alguns minutos no dia, pode ser aquele tempo perdido no engarrafamento, para se perguntar “e se meu filho ficar paraplégico”? E se “minha mãe sofrer um AVC e ficar com os movimentos muito comprometidos”? Como vou tratá-los? Serei capaz de amá-los e respeitá-los? Então porque esperar que isto aconteça se há tanta gente esperando ser respeitada?


Este artigo pertence ao Caminhando Junto Blog.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.