Olimpíadas Rio 2016: descobrindo os segredos de um vencedor

Pessoas que têm sucesso e as que falham sempre estão sujeitas aos mesmos princípios. O que faz a diferença é a forma como são aplicados. Uma maneira extremamente útil de se conhecer e saber como funcionam estes princípios é estudar e aprender com pessoas que tiveram ou têm êxito. E não resta a menor dúvida de que a vitória da candidatura Rio 2016 em Copenhagen é uma história de sucesso, fruto da contribuição de muitas pessoas. Entretanto, uma delas, Carlos Arthur Nuzman, merece atenção especial, pois sem ele as Olimpíadas não viriam para o Brasil. Seu principal mérito foi transformar um sonho num movimento coletivo irresistível. Assim, vejamos a manifestação concreta de alguns destes princípios que fazem a diferença.

1º. Se você quiser ser um vencedor, treine para ser um vencedor

Ao contrário do que muitos acreditam, o sucesso não começa com um sonho, mas sim com o treino para se ser um vencedor. Quem foi treinado para ser perdedor pode sonhar à vontade que sempre vai encontrar uma forma de fracassar. E neste sentido, um ponto importante é o ambiente e as circunstâncias em que se vive no período de formação. Nuzman começou a jogar vôlei no Colégio Mello e Souza em Copacabana. Por um destes acasos, havia no colégio alguns jogadores muito bons como Victor Barcellos, João Cláudio França e Carlos Eduardo Feitosa, que serviam como referência e desafio e que, como Nuzman, acabaram na seleção brasileira. Um deles em especial, Feitosa, era fora de série e veio a se tornar um dos maiores jogadores do mundo da sua época.

E é superando desafios que vai se formando a paixão e a determinação implacável, condições indispensáveis para se ser um vencedor. Ou como dizia Albert Ellis: “A determinação implacável representa talvez três quartas partes da vitória”. O fato é que os esportes podem ter uma contribuição muito importante para esta formação. Wellington, por exemplo, costumava dizer que Waterloo havia sido ganho nos campos de esporte de Eton. Portanto, quando competir, utilize todas as forças para vencer. Saiba o que tem que ser feito e faça o que tem que ser feito.

2º. Aprenda com as adversidades e derrotas

Jamais vai realizar seus sonhos quem acreditar que possa ter sucesso sem passar por adversidades, derrotas, dores e sacrifícios. A atleta russa Elena Isinbayeva era favorita absoluta para vencer a competição de salto com vara no Campeonato Mundial de Atletismo Berlim 2009. No entanto, teve um desempenho medíocre e fracassou. Mas na competição seguinte bateu o recorde mundial. Adversidades, dores e derrotas são inevitáveis e fazem parte da vida. A questão são os aprendizados e as formas que se encontram para enfrentá-las e superá-las. Alguns “sabem perder”, outros ficam se lamentando, se irritando ou arranjando desculpas descabidas. E isto é perder mais ainda. Mas há os que aprendem e transformam dores e derrotas em desafio, superação e vitória. Para chegar à vitória na indicação do Rio, houve derrotas. E Nuzman foi motivo de piada e chacota quando o Rio perdeu duas vezes a possibilidade de sediar os Jogos Olímpicos em 2004 e 2012. Nestas ocasiões, o projeto nem passou das etapas preliminares do processo seletivo. E isto sem falar na malograda tentativa Brasília 2000. Mas superar dores e adversidades começou cedo. Nuzman tinha 10 anos quando sua mãe faleceu. Foi no esporte que encontrou um meio para enfrentar a dor da perda. Mas no esporte, só é campeão quem souber suportar dores e enfrentar sacrifícios. De acordo com o psicólogo esportivo Rod Gilbert, “os perdedores visualizam as punições do fracasso. Os vencedores visualizam as recompensas do sucesso”. Ou como disse César Cielo depois de vencer no Campeonato Mundial de Natação Roma 2009: “Medalha de ouro com recorde mundial, a emoção é muito grande. É um sonho sendo realizado. Agora está doendo o corpo inteiro. Eu sabia que ia doer, mas está valendo muito a pena essa dor. É a maior alegria que eu poderia ter”.

3º. A visão do futuro e sonhos

Ter sonhos é importante, pois dão direção, significado e orientam o foco. Mas em termos de sonhos, talvez fosse melhor pensar numa cadeia de sonhos. Um sonho que leva a outro, que leva a outro e assim sucessivamente. Primeiro, o sonho de ser jogador de vôlei, o que aconteceu de 1957 a 1972. Começou no Clube Israelita Brasileiro (CIB), Depois foi para o Botafogo. Foi campeão em várias oportunidades. Participou da seleção brasileira que foi aos Jogos Olímpicos de Tóquio em 1964.

Passados os sonhos de atleta, começaram os de dirigente esportivo. Foi eleito e presidiu a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV), entre 1975 e 1996. Muitos creditam o ótimo desempenho do vôlei brasileiro na década de 1990 e começo do século XXI em grande parte ao seu trabalho. Depois foi eleito e passou a presidir Comitê Olímpico Brasileiro (COB) até o momento presente

4º. Não se chega ao sonho se a jornada não levar ao sonho

Nem sempre é fácil descobrir qual deve ser a jornada e pode-se andar por muitos caminhos equivocados. Às vezes, a descoberta do caminho das pedras pode vir de fontes inesperadas. Foi o espanhol José Antonio Samaranch, quando presidente do Comitê Olímpico Internacional (COI), que ajudou a traçar a estratégia do Rio de Janeiro – que acabou derrotando Madri na disputa por sediar a Olimpíada de 2016. Ele disse o seguinte a Nuzman: “O que vai dar certo para levar a Olimpíada para o Brasil é fazer o Pan-2007 e apresentar a candidatura para 2016”. Mas para fazer o Pan-2007, o Rio teve que derrotar um forte concorrente que parecia imbatível: San Antonio – cidade americana do estado do Texas, berço eleitoral do presidente dos EUA, George Bush. E esta foi a primeira derrota de uma cidade americana.

5º. Decisões e escolhas

Os caminhos da vida são feitos de decisões e escolhas. Assim, o que pessoas, empresas ou nações são é consequência destas decisões e das ações efetuadas para efetivá-las. Ou como dizia Peter Drucker: “O produto final do trabalho de um administrador são decisões e ações”. Mas o que é interessante é que se você perguntar a qualquer executivo ou gestor se sabe tomar decisões, a resposta será um unânime sim. Mas não é isto que os fatos mostram. Paul Nutt da Ohio University estudou os resultados de decisões tomadas ao longo de 19 anos por executivos e gerentes de 365 diferentes empresas e constatou que mais de 50% de todas as decisões fracassaram. Assim sendo, um dos fatores determinantes do sucesso de Nuzman está na qualidade das decisões que foi tomando ao longo de sua vida, desde o início, quando começou a praticar vôlei no Colégio Mello e Souza. Decisões que se referiam não apenas a objetivos, como tornar o Brasil campeão olímpico de vôlei ou realizar as Olimpíadas no Rio de Janeiro, mas também na escolha das pessoas que deveriam integrar seus projetos. Exemplo disto são os técnicos José Roberto e Bernardinho e também Ary Graça Filho como seu sucessor na Confederação Brasileira de Vôlei. Graça Filho é o responsável pela realização do projeto de Excelência do Centro de Desenvolvimento do Voleibol em Saquarema. Mas também houve muitas outras escolhas, menos conhecidas é verdade, mas igualmente importantes como a do marqueteiro inglês Mike Lee, que é considerado peça-chave na vitoriosa campanha de Londres pelos Jogos de 2012.

De qualquer forma, é sempre conveniente lembrar que uma pessoa é vitoriosa por seus pontos fortes, mas pode ser derrotada por seus pontos fracos. Como Aquiles, o herói da mitologia grega que, apesar de todas as qualidades e poder, não resistiu a uma simples flechada no calcanhar. É igualmente importante ter em mente que o sucesso no passado não garante a glória no futuro, pois a vida é um eterno recomeçar.

José Augusto Wanderley, Consultor em Excelência de Desempenho, Negociação e Liderança e autor do livro Negociação Total, publicado pela Editora Gente


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Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.