Ainda há espaço para o sonho?

O ano está chegando ao fim e mais de um milhão de brasileiros jovens, recém-egressos do Ensino Médio, tentarão a sorte nos vários vestibulares do País. Muitos realizarão o sonho de entrar em uma boa universidade. Outros terão de adiar mais um pouco esse desejo e dedicar pelo menos mais um ano de suas vidas a um bom cursinho preparatório. O que dói é saber que uma maioria silenciosa encerrará sua trajetória de estudos, preferindo ingressar de uma vez por todas no mercado de trabalho, ainda que isso lhes custe o doloroso preço de abrir mão de projetos mais ambiciosos de carreira e vida.

Desde os tempos em que o Brasil era uma colônia de Portugal, o diploma de bacharel é supervalorizado em nosso país. Talvez porque os filhos das elites da época fossem os únicos com direito ao privilégio de cursar Medicina, Direito e Engenharia – as principais carreiras daquele tempo – nas universidades europeias, o diploma tenha ganho status de diferencial socioeconômico. Com o advento da República, passou a ser o nosso “título de nobreza” moderno.

À medida que o ensino foi sendo democratizado e os filhos da classe média também começaram a ter acesso aos cursos universitários, obter o diploma virou verdadeira obsessão. Não sem razão, os pais operários e as mães donas-de-casa estufam o peito de orgulho quando podem dizer que seus filhos são detentores de um título superior. A valorização do curso universitário é algo positivo. Simboliza o reconhecimento, pela sociedade, da importância de se ter uma formação boa, consistente, avalizada.

Não obstante, enveredamos por um caminho complicado ao deixarmos de enaltecer outras alternativas para a formação profissional. Os cursos técnicos, que no Japão constituem elemento-chave para a sua competitividade, em especial no ambiente da indústria, foram, durante muito tempo, relegados a segundo plano nas terras brasileiras. A eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, metalúrgico formado pelo SENAI-SP, ao mais alto cargo político do País, poderia ter representado o resgate do valor dessa vertente educacional que privilegia a habilidade acima do saber acadêmico.

Outro aspecto pouco discutido quanto ao ensino superior no Brasil é que, frequentemente, seus conteúdos estão desconectados da realidade. Não existem dados precisos a esse respeito, mas uma observação empírica das pesquisas desenvolvidas nas universidades mais conceituadas do País – e, convém lembrar, sustentadas por verbas públicas – nos revela que muito pouco do que se estuda terá aplicabilidade prática.

Não acho que a ciência e a produção do conhecimento devam estar unicamente a serviço de interesses de mercado. Tampouco defendo que os ideais de teóricos e cientistas sejam sacrificados em nome de um pragmatismo primário. Porém, como cidadão brasileiro, que quer ver o País crescer e progredir e que sabe da intrínseca ligação entre pesquisa, desenvolvimento, competitividade e arrojo econômico, confesso que gostaria muito de ver um pouco mais de pragmatismo no meio acadêmico brasileiro.

Foi com esse objetivo que pensei a Trevisan Escola de Negócios. Queria criar uma opção para aquele jovem que, assim como eu, acredita no empreendedorismo e quer atuar nessa área, mas não pode permitir-se o luxo de ficar longe do mercado de trabalho enquanto realiza pesquisas e segue carreira acadêmica. O que eu quis oferecer e tem funcionado muito bem é um tipo de conhecimento que equacione tudo, equilibrando o chamado saber “puro” às noções concretas de mercado e de funcionamento das empresas.

Por isso, optei por constituir um quadro de professores composto por profissionais atuantes no mercado. Todos os docentes da nossa escola são também consultores, fazem parte das empresas, conhecem seu dia-a-dia. E associam essa experiência a uma visão acadêmica e teórica de peso, imprimindo um tom realista e atual aos conteúdos ensinados.

Quando os nossos alunos formam-se, são contadores, administradores, profissionais de marketing e de relações internacionais que já detêm, no currículo, quatro anos de experiência no mercado de trabalho. Esse ambiente esteve com eles ao longo do curso, e muito do que aprenderam em sala de aula foi baseado no que acontecia fora dela.

Talvez esse pragmatismo, na busca por uma aplicação prática do conhecimento, seja o caminho para o Brasil preencher suas lacunas nos campos da medicina, engenharia, tecnologias de informação, pedagogia e tantos outros ramos do conhecimento. Nesta última área, aliás, tem feito muita falta o foco na busca de resultados concretos. As longas discussões sobre formação cidadã e concepção política do ensino vêm substituindo um aprendizado mais essencial, que diz respeito às técnicas de transmissão do conhecimento. Acredito que ajudar as crianças e os jovens a dominarem a Língua Portuguesa, a matemática e outros conhecimentos básicos seja extremamente importante para o sucesso de uma nobre meta: “formar cidadãos”. Infelizmente, porém, o aspecto prático tem sido de tal modo preterido que o saber formal está, dia após dia, sendo excluído da sala de aula.

Resgatar um ensino de qualidade é premente. Também é fundamental não perdermos as conquistas empreendidas nestas últimas três décadas, em que a educação foi universalizada e iniciativas como a ProUni ajudaram a colocar mais e mais jovens dentro das universidades. Agora, entretanto, chegou a hora de fazer com que os investimentos financeiros e de capital humano se traduzam em resultados efetivos, geração de riquezas e construção de um Brasil não apenas mais feliz e igualitário, mas também seguro de suas conquistas.

O pragmatismo e os sonhos não são incompatíveis. É possível, sim, o jovem ter uma carreira que ame e, ao mesmo tempo, contribuir para a consolidação do nosso desenvolvimento. Aos teóricos da educação, proponho um desafio: buscar os caminhos para que esses objetivos sejam atingidos.

Antoninho Marmo Trevisan é empresário, educador e consultor, presidente da Trevisan Escola de Negócios, da Trevisan Outsourcing e do Conselho Consultivo da BDO Trevisan, além de membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

Este artigo pertence ao Caminhando Junto Blog.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.