A corrente do bem, um projeto social de tirar o chapéu

Toda vez que olho para as picaretagens que acontecem no Brasil, fico muito desanimado com o futuro. Veja agora o caso do ENEM que foi cancelado porque vazou a prova. Então, recebo uma história de ousadia, coragem e solidariedade que me enche de esperança e por isto, compartilho hoje com vocês.
No Brasil, o filme da diretora norteamericana Mimi Leder, Pay it Forward, foi exibido com o título A Corrente do Bem. É a história de um menino que acredita na bondade humana e decide mudar o mundo para melhor. Um programa social realizado em Curitiba (PR) está resultando em algo bem parecido ou até melhor do que isso. Trata-se do programa Bom Aluno, idealizado pelos empresários Francisco Simeão e Luiz Bonacin, que seleciona crianças com bom desempenho escolar na quinta série, para dar-lhes a oportunidade de ter ensino de qualidade, com aulas em escolas particulares e atividades extraclasse. Esse ano, uma ex-participante do programa passou a enviar dinheiro ao Bom Aluno, em retribuição ao que recebeu. Fabiana Siroma, médica do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, tinha apenas 14 anos quando começou a ter apoio financeiro e pedagógico. A família veio de Santos (SP) em 1992, com o pai desempregado e a mãe trabalhando como auxiliar contábil. Dois anos depois, Fabiana foi selecionada pelo programa social. Em 2004 graduou-se em Medicina. Se transformou em uma profissional de alto desempenho, estável financeiramente e grata a ponto de querer fechar o círculo do bem, enviando recursos para que o programa pudesse beneficiar mais um aluno. Juliana Camile de Jesus, de 14 anos, conseguiu o privilégio.

Juliana tem uma situação econômica adversa. O pai trabalha como cortador em uma malharia e a mãe faz vários tipos de pequenos serviços para complementar a renda. A dura saga que a família enfrenta não é de hoje, conforme relata a mãe da menina, Cleonice Pereira de Jesus. “Tive muito pouco contato com meus pais e morei em um orfanato dos seis aos dez anos”. Emocionada ao saber que Fabiana está ajudando sua filha, Cleonice desabafou: “a gente jamais poderia dar esse tipo de apoio à Ju, mas a gente prioriza isso e sempre acompanha muito de perto a educação dela”. Para Simeão e Bonacin o fechamento do ciclo foi a prova irrefutável de que o projeto deu certo. “A partir do Bom Aluno, as crianças carentes que são um problema para a nação, passam a ser parte da solução quando cada um adotar dois nos estudos, e estes dois, quatro, assim sucessivamente”, disse Simeão.

Proclamada madrinha do programa, Fabiana relembrou as dificuldades que passou enquanto estudante. “Era uma escola estadual desfavorecida em Curitiba, com muitos problemas e violência. Ao deixar a minha escola em Santos, senti muita diferença. O colégio passava dificuldades e eu tinha um potencial maior”, revelou a infectologista. Na oitava série Fabiana conseguiu ingressar no programa. Passou a frequentar gratuitamente um curso preparatório para o segundo grau, recebeu material e uniformes. Os três anos do ensino médio lhe saíram de graça. No contraturno, fez cursos de línguas, orientação de hábitos de estudo, desenvolvimento pessoal e redação. Com tanta instrução o resultado foi condizente: passou no concorrido vestibular de Medicina, na Universidade Federal do Paraná. Viajou aos Estados Unidos com tudo pago para aperfeiçoar o inglês. Mais tarde, foi a primeira participante do programa Bom Aluno a concluir um curso superior.

Talentos incompreendidos

Ao mesmo tempo em que o Instituto Bom Aluno do Brasil tinha as melhores intenções para levar educação de qualidade a estudantes carentes de alto desempenho, não sabia como avaliar e orientar adequadamente as crianças com um potencial acima da média. Foi assim que os caminhos do Ibab e do Inodap (Instituto para Otimização da Aprendizagem, Educação Especial, Talento e Superdotação) convergiram. Os dois institutos estão inaugurando uma sede única para dar atendimento completo aos estudantes. “Até encontrar o Inodap usávamos muito mais o nosso tino empresarial de avaliação de pessoas e de aproveitamento de talentos do que conhecimento na área educacional, que não era o nosso forte”, disse Francisco Simeão Rodrigues Neto, que é presidente da BS Colway Pneus. “O Inodap veio espontaneamente nos auxiliar, sem exigir compensação financeira, para ajudar a comunidade”, enfatizou. “Já existia uma parceria informal”, explicou Maria Lúcia Sabatella, presidente do Inodap. “Agora unimos nosso conhecimento técnico ao suporte que o Ibab oferece para chegar a um nível de excelência, respeitando a singularidade de cada um desses estudantes”. Maria Lúcia, pesquisadora na área de superdotação e ganhadora do Troféu Mulheres de Ciência 2009 (atribuído pela Secretaria de Ciência de Tecnologia do Paraná), conduz os trabalhos de avaliação dos alunos, orientação das famílias e das escolas, com a ajuda de uma equipe especializada. Instituição pioneira em educação especial, o Inodap tem sido referência pelos resultados alcançados. “Há dificuldades com os professores do ensino regular, que não sabem identificar alunos com enorme potencial. Os alunos com inteligência superior à média precisam de desafios e não têm paciência com a rotina da sala de aula. Muitos se desestimulam e até desistem da vida acadêmica”, disse a pesquisadora.

Para Simeão, o Ibab descobriu vários talentos, mas com uma enorme e típica dificuldade de relacionamento. “Cometemos vários erros por falta de conhecimento e deixamos passar vários alunos que poderiam ter sido melhor encaminhados. O Inodap mostrou que tínhamos muito mais superdotados do que se imaginava e percebemos que deveríamos nos aproximar mais de uma entidade especializada no assunto”.

O que é o Bom Aluno

O Programa Bom Aluno é um dos programas assistenciais do Ibab e foi criado em 1993, em Curitiba (PR), para dar educação de qualidade a crianças e jovens carentes com bom desempenho nas redes públicas de ensino. Atualmente o programa tem 217 alunos. Segundo o diretor do programa, Ozil Pedro Coelho Neto, 107 estão cursando universidades e 118 já entraram no mercado de trabalho com curso superior. Este ano outros 21 vão prestar vestibular. Uma parceria do Ibab com a Companhia de Eletrificação do Paraná (Copel), estabelecida em junho, vai repassar R$ 1,5 milhão em dois anos para o Grupo Escoteiro Guardião das Águas, um dos braços do Ibab que desenvolve a consciência socioambiental, ocupa crianças em situação de risco social e protege áreas de manancial. Várias empresas apadrinham os estudantes do projeto: BS Colway Pneus, Amil, Firenzzi Centro Automotivo, Instituto HSBC Solidariedade, Landis Gyr, Lume Tecnologia, Prodata, Racional Estruturas, Regional Imóveis, TBG Transportadora Brasileira Gasoduto Bolívia-Brasil S.A., Vipal e Rede Paranaense de Comunicação (RPC). Qualquer pessoa ou empresa pode adotar um estudante carente através do projeto. Mais informações podem ser fornecidas pelo telefone (41) 3034-8498 ou pelo website www.bomaluno.com.br.

Conheça alguns dos talentos do programa social

Diego Bergamini – 24 anos
Quando entrou no programa, a mãe dispunha de R$ 300,00 mensais para sobreviver.
Formou-se em Administração Internacional de Negócios pela UFPR.
Em São Paulo, foi coordenador de trade marketing na multinacional Kraft Foods.
No momento faz mestrado em Milão, Itália, curso ministrado em inglês.

Lucimara Ferreira de Lima – 24 anos
Vivia com a mãe e outros dois irmãos, sem condições de cursar ensino de qualidade.
Formou-se em Arquitetura pela Faculdade Tuiuti, como melhor aluna da turma.
Selecionada pela UFPR para cursar Especialização em Obras Públicas.
Faz residência técnica na Secretaria Estadual de Obras, com bolsa de estudos.

Cléverson Alex Leitão – 17 anos
A mãe sustenta três filhos com o emprego em um supermercado.
Eleito o melhor aluno do “terceirão”, em 2008, no Colégio Bom Jesus.
Medalha de prata da Olimpíada Paranaense de Química, em 2008.
Passou em três faculdades de Medicina em Curitiba. Cursa a UFPR.
O Programa Bom Aluno ainda paga seu curso de inglês.

Guilherme Cardoso de Souza – 13 anos
Menino prodígio, aprendeu a falar e ler aos dois anos.
Pais não tinham recursos para dar a educação ideal.
Medalha de ouro na Olimpíada Paranaense de Química, em 2008.
Com 13 anos foi 1º colocado no vestibular de Química da UFPR, que cursa no momento.
É o mais jovem estudante a ingressar em uma universidade pública no Brasil.


Este artigo pertence ao Caminhando Junto Blog.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.