Sucesso e os pecados capitais dos livros de auto ajuda

Um dos assuntos que costuma provocar muita controvérsia é o da auto ajuda. E o conjunto de reações pode variar dos que acreditam piamente, sem nenhuma consciência crítica e restrição, aos incrédulos, céticos e cínicos. Para os que acreditam piamente, tudo o que lêem são verdades absolutas que não podem ser questionadas. Para os céticos e cínicos todos os livros de auto ajuda não têm nenhum mérito ou valor e os autores, além de não serem pessoas sérias, não passam de oportunistas que estão se aproveitando da ingenuidade alheia.

Para estes últimos podemos dizer que autores considerados sérios, sem nenhuma sombra de dúvida, escreveram livros de auto ajuda. Entre eles, o filósofo e matemático inglês Bertand Russell, autor de A Conquista da Felicidade e o psicólogo americano Albert Ellis, que criou a TCER – Terapia do Comportamento Emotivo Racional, e escreveu vários livros, entre eles Como Conquistar sua Própria Felicidade. Ellis não tinha nenhuma vergonha de dizer que escrevia livros de auto-ajuda, relatando casos de pessoas que leram seus livros e que tiveram melhoras consideráveis face as adversidades da vida. Mas também relata casos de pessoas que leram tudo sobre pensamento positivo e tiveram que se internar em clínicas psiquiátricas ou acabaram tomando doses cavalares de tranqüilizantes. Portanto, em termos de auto-ajuda, mais do que nunca, é fundamental saber separar o joio do trigo. Além disto, deve ser ressaltado que compete a quem ler o livro, interpretar e tirar conclusões apropriadas, o que nem sempre é fácil.

Em oposição a auto-ajuda está a ajuda advinda através de outras pessoas, um conhecido, um amigo, um terapeuta ou um coach. E será que esta ajuda vinda através de terceiros, sempre ajuda? A resposta é não, tanto assim que já houve casos de pessoas que estavam em processo terapêutico e chegaram ao suicídio. Isto quer dizer que um tratamento psicológico pode provocar danos, que em alguns casos são irreversíveis.

Mas o fato é que não existe ninguém que tenha chegado ao sucesso, ou que tenha superado as adversidades da vida, que não tenha tido algum tipo de ajuda de outros, seja através da comunicação direta, seja de leituras, ou ambas. É claro que também existe uma terceira categoria, que é a daqueles dominados pelo VOA: vaidade, orgulho e arrogância. Estes são auto-suficientes, onipotentes e oniscientes e não precisam de ajuda de quem quer que seja. Pelo menos é no que acreditam.

A fim de alertar para as armadilhas e perigos dos livros de auto-ajuda, vamos a alguns dos pecados capitais que podem ter conseqüências extremamente perniciosas. Mas de qualquer forma, é importante enfatizar que o pecado tanto pode estar no livro como no modelo mental do leitor.

1) Divinizar os gurus ou autores, sem se dar conta que eles também erram. Por exemplo, em 2000, Gary Hammel, um dos gurus do pensamento estratégico e da liderança, no seu livro Liderando a Revolução, cita a Enron como um exemplo de criatividade, ousadia e inovação. Entretanto, no final de 2001, a Enron estava envolvida num mar de fraudes e faliu. Assim, vale o que dizia Budha: “Não acredite em nada simplesmente porque foi dito. Nem em sábios, nem na autoridade de mestres e professores. Só acredite quando os escritos, doutrinas e dizeres forem corroborados pela razão e consciência”. Portanto, nunca abdique de duas coisas fundamentais: lucidez e consciência crítica;

2) Querer ter certeza absoluta. Vivemos num mundo de probabilidades e incertezas. Há algum tempo, tivemos o acidente aéreo do avião da Gol com o Legacy. Qual era a probabilidade de que aqueles dois aviões se chocassem naquele imenso espaço aéreo? Mínima, talvez desprezível, mas, no entanto o acidente ocorreu. Assim, vale desenvolver a sabedoria da insegurança, ou seja, sair da área do conforto e do familiar e poder viver o risco, a incerteza e o desconhecido. É sempre bom lembrar que “mar tranquilo não faz bom marinheiro”;

3) Tirar conclusões equivocadas e não ter a menor consciência disto. O autor de um livro pode querer dizer uma coisa, mas em função do DOG – distorção, omissão e generalização-, fenômenos comuns ao processo de percepção, pode-se ter interpretações bastante distintas daquelas que o autor pretendia. Além disto, um mesmo fato pode permitir conclusões inteiramente distintas. Um exemplo desenvolvido por Einstein pode esclarecer melhor a questão. Se uma pessoa estiver num trem em movimento e deixar cair um objeto, para esta pessoa, o objeto vai cair numa linha reta vertical. Entretanto, este mesmo objeto, visto por uma pessoa que estiver fora do trem, vai cair em forma de curva. Assim sendo, acostume-se a ver a realidade por vários pontos de vista e sistemas de referência;

4) Falta de feedback ou retro-alimentação. O fato do leitor não se comunicar com o autor gera o problema do arco-de-distorção, que é a diferença entre o que o autor quer transmitir e aquilo que o leitor capta da mensagem. Isto é bastante comum na comunicação de sentido único. Um outro problema com relação à falta de feedback é o da área cega, isto é, aquilo que os outros percebem em nós, mas que não temos idéia a respeito. Ou como diz a expressão bíblica: “É mais fácil ver um cisco no olho do outro do que uma trave no próprio olho”. Para evitar este tipo de coisa, passou a ser bastante usual nas empresas a avaliação 360 graus, em que uma pessoa recebe feedbacks dos que estão no seu entorno. E esta é, na verdade, uma vantagem da ajuda vinda através de terceiros, que não pode ser alcançada por meio dos livros de auto-ajuda;

5) Não ter precisão com relação à questão dos limites, adversidades e ter sentimentos de onipotência. Limites fazem parte da nossa vida. Existem dois tipos de limites: os auto impostos e os reais, o que nem sempre é fácil diferenciar. Certa vez uma pessoa que tinha medo de mar leu um livro sobre a importância de se ter uma autoconfiança inabalável. Feito isto, foi nadar e morreu afogada. Não se deu conta de que só ter autoconfiança não basta. Também é preciso ter habilidades e competências;

6) Supersimplificar as coisas desconsiderando sutilizas, ambigüidades e a necessidade da visão holística, isto é, que o sucesso não é consequência de um único fator, mas de um conjunto deles. Talvez uma das figuras mais importantes, mas também das menos conhecidas atualmente, em termos de auto-ajuda, é a do farmacêutico francês Emile Coué, cujo nome está associado às pesquisas sobre efeito placebo e é considerado o pai da auto-hipnose. Ele ficou conhecido, no início do século passado, pela frase: “Todos os dias sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor”. Numa viagem aos Estados Unidos, Coué foi injustamente difamado pela combinação de ignorância e arrogância da imprensa americana e ficou profundamente abatido até morrer em 1926. Ou seja, a frase famosa não surtiu efeito para ele. Uma supersimplificação, muito comum hoje em dia, tem a ver com a ilusão dos sonhos ou do peça, acredite e receba. Parece que basta sonhar e está tudo resolvido. Ora, o sonho é apenas o início de um processo e existem muitos outros parâmetros a serem considerados. Um deles, como muito bem enfatiza Paul Stoltz, é a capacidade de enfrentar adversidades. O jogador de futebol Zidane, na Copa do Mundo 2006, tinha um sonho, estava altamente motivado e tinha uma fantástica competência. No entanto, deu uma cabeçada num adversário e botou tudo a perder. Ou seja, sem que se saiba entrar em estados mentais e emocionais ricos de recursos nos momentos importantes e decisivos, de nada adianta sonhar.

Para concluir: Um livro de auto-ajuda pode ajudar? Sim, pode e muito. Mas é sempre bom ter presente uma música cantada pelo Paulinho da Viola: “O que dá para rir também dá para chorar”.

José Augusto Wanderley é Consultor em Negociação, Liderança e Excelência de Desempenho e autor do livro Negociação Total (Editora Gente)


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Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.