Eu Protesto!!!

Infelizmente, tive o desprazer de acompanhar numa tarde chuvosa de domingo uma relação de músicas enviadas para a Garagem do Faustão. Uma vergonha: a baixíssima qualidade das canções apresentadas quase sempre forrós mal acabados, batidas funk sem sentido e o escracho total. Temo acreditar que essa seja a realidade do país que já esteve tão melhor com tantos artistas que realmente tinham o que falar.
Aliás, como estão sem sentido as canções atuais. A melodia e os textos são mal elaborados e não dizem nada com nada. Nem mesmo em momentos conturbados socialmente e politicamente ninguém cria uma obra de protesto ou contestando a realidade. Sei que muitos vão me chamar de saudosista, mas não podia deixar de escrever isso aqui. Peço aos leitores que leiam com atenção alguma letra de protesto do Bob Dylan ou do Chico Buarque falando da hipocrisia das guerras, conflitos raciais, opressões e pressões com seus heróis fracassados e acabados.
Observe a letra da música “Masters Of War”, de Bob Dylan, que está no topo da lista de melhores canções de protesto de todos os tempos de uma revista inglesa. Ela saiu em 1963, como faixa do disco “Freewheelin'”. Outra de protesto muito boa é do besouro John Lennon “Give Peace a Chance”.
No Brasil, encaramos a ditadura com letras inteligentes e abrangentes. Muitas canções, subliminares ou não, sobre a prisão da cultura. O sangue, suor e cerveja continuam aí mais ninguém tem capacidade para falar sobre o cotidiano de forma concreta. No Brasil marcaram época Cálice (Chico e Milton), Que país é esse e Perfeição: “Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado” (Legião Urbana), Proibido Proibir (Caetano), Brasil (Cazuza), Pra não dizer que não falei das flores “Soldados armados, amados ou não, quase todos perdidos com armas na mão” (Geraldo Vandré), entre outras.
Músicos com dignidade sempre se envolveram em questões sociais e mesmo de forma sublime mostraram as diferenças sociais: “Que mundo tão desigual, tudo é desigual. De um lado esse carnaval e de outro a fome total” (A novidade – Paralamas).
A partir dos anos 60, a música com referência ideológica ganhou popularidade com a expressividade do rock. As questões levantadas eram as mais diversas como discussões em favor da liberdade de expressão, pelo fim das guerras e do desarmamento nuclear, idealizando um mundo de “paz e amor”. Fizeram estardalhaço músicas como “Revolution” (Beatles) e “We Love You” (Rolling Stones). Aqui no país, a repressão e a censura instauradas pelo regime militar deram origem a movimentos musicais que viam na música uma forma de criticar o governo e de chamar a população para lutar contra a ditadura, como o Clube da Esquina e a Tropicália.
Voltando ao presente e para não dizer que estou de mal humor vou lembrar do grupo O Rappa que espremem a laranja para o sumo de Rodo Cotidiano, Minha Alma e O que sobrou do céu. Nada demais, mas já é alguma coisa.
Para terminar vejam (e se puder procurem e ouçam) a sutileza de uma canção de protesto contra a ditadura, feita por Taiguara:

“Que as crianças cantem livres”

O tempo passa e atravessa as avenidas
E o fruto cresce, pesa e enverga o velho pé
E o vento forte quebra as telhas e vidraças
E o livro sábio deixa em branco o que não é

Pode não ser essa mulher o que te falta
Pode não ser esse calor o que faz mal
Pode não ser essa gravata o que sufoca
Ou essa falta de dinheiro que é fatal

Vê como um fogo brando funde um ferro duro
Vê como o asfalto é teu jardim se você crê
Que há sol nascente avermelhando o céu escuro
Chamando os homens pro seu tempo de viver

E que as crianças cantem livres sobre os muros
E ensinem sonho ao que não pode amar sem dor
E que o passado abra os presentes pro futuro
Que não dormiu e preparou o amanhecer…

(Bom final de semana. Proteste se tiver coragem)
Eduardo de Souza é jornalista, cantor, compositor e participa de protestos nas horas vagas.


Este artigo pertence ao Caminhando Junto Blog.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.
Categorias: musica 1 comentário