1967: o ano da música

Enquanto os estudantes brasileiros faziam passeatas exigiam participação na universidade de todos os aprovados no vestibular (não havia vagas suficientes) e se reuniam no restaurante universitário Calabouço, no Rio de Janeiro, uma onda musical surpreendente tomava conta do ano de 1967. Enquanto a famosa Passeata dos Cem Mil era realizada e o decreto do Ato Institucional nº 5 era preparado contra os manifestantes, os discos mais memoráveis eram lançados pelo mundo criando aquele que seria chamado de o ano da música: 1967. Só para você se situar na história, nesta época o XXX Congresso de Estudantes da UNE, em Ibiúna, foi desbaratado e levou à prisão mais de 900 participantes. Também houve a invasão da polícia à Universidade de Brasília, episódio rechaçado em plena Câmara pelo deputado Márcio Moreira Alves. (O discurso dele seria tomado depois como justificativa para a implementação do AI-5).

É meu amigo… as coisas por aqui andavam barra pesada enquanto em São Francisco (EUA) o verão de 1967 ficou conhecido como “The Summer of Love” (“O Verão do Amor”) um marco na contracultura hippie . Este ano tornou-se o mais importante para o rock com lançamentos de discos importantes como “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, “Magical Mystery Tour” (ambos dos Beatles), “Winds of Change” (Eric Burdon & The Animals), “The Doors” e “Strange Days” (The Doors), “The Piper at the Gates of Dawn” (Pink Floyd), “Disraeli Gears” (Cream), “Their Satanic Majesties Request” (The Rolling Stones), “The Who Sell Out” (The Who) e “Are You Experienced?” e “Axis: Bold As Love” ( The Jimi Hendrix Experience) sem contar outras obras memoráveis.
No Brasil, o Festival Internacional da Canção (FIC) neste mesmo ano, destacava o jovem Milton Nascimento que emplacou três músicas, entre elas “Travessia”, que levou o prêmio de melhor intérprete. O 1º lugar ficou para “Margarida” (Gutemberg Guarabyra) Gutemberg Guarabyra e o Grupo Manifesto, o 2º lugar para “Travessia” (Milton Nascimento – Fernando Brant) e o 3º lugar para “Carolina” (Chico Buarque) interpretada por Cynara e Cybele (ambas do Quarteto em Cy). No exterior foi o ano do lançamento do álbum de estréia do The Doors, The Velvet Underground, David Bowie e Jimi Hendrix, além do primeiro álbum de nível internacional dos Bee Gees. Também foi o ano do surgimento de bandas como Creedence Clearwater & Revival e Genesis.
Para aqueles que adoram fatos curiosos, no dia 31 de março de 1967 , Jimi Hendrix põe fogo na sua guitarra em um show pela primeira vez. Ele sofre queimaduras nas mãos e o incêndio da guitarra se tornaria sua marca durante seus shows. No dia 25 de junho, os Beatles apresentam a música “All You Need Is Love” no especial de televisão Our World, que foi a primeira transmissão ao vivo para o mundo inteiro. Na vocalização da canção participaram Eric Clapton, membros dos Rolling Stones e The Who. No dia 9 de novembro, a primeira edição da revista mais importante da música Rolling Stone Magazine é publicada.
Se pudéssemos voltar no túnel do tempo escolheríamos esse ano com certeza. Um artista brasileiro conseguiu compilar esse turbilhão de emoções e experiências marcantes para nós os amantes da música e colocou numa simples canção que foi composta em 1967:

“Alegria, Alegria Caetano Veloso
Caminhando contra o vento Sem lenço e sem documento No sol de quase dezembro Eu vou…
O sol se reparte em crimes Espaçonaves, guerrilhas Em Cardinales bonitas Eu vou…
Em caras de presidentes Em grandes beijos de amor Em dentes, pernas, bandeiras Bomba e Brigitte Bardot…
O sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça Quem lê tanta notícia Eu vou…”
Por entre fotos e nomes Os olhos cheios de cores O peito cheio de amores vãos Eu vou Por que não, por que não…
Ela pensa em casamento E eu nunca mais fui à escola Sem lenço e sem documento, Eu vou…
Eu tomo uma coca-cola Ela pensa em casamento E uma canção me consola Eu vou…
Por entre fotos e nomes Sem livros e sem fuzil Sem fome, sem telefone No coração do Brasil…
Ela nem sabe até pensei Em cantar na televisão O sol é tão bonito Eu vou…
Sem lenço, sem documento Nada no bolso ou nas mãos Eu quero seguir vivendo, amor Eu vou…
Por que não, por que não…

Eduardo de Souza é jornalista, cantor, compositor e adora viajar pelo tempo.


Este artigo pertence ao Caminhando Junto Blog.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.