De onde vem tanta infelicidade?

Michael Jackson morreu e vivia infeliz. Farrah Fawcett, que já foi a mulher mais bela do mundo, faleceu, e vivia infeliz. Fred Mercury, a voz mais espetacular dos últimos tempos, vivia infeliz. Recentemente, uma revista alemã revelou que Gisele Bundchen, a top-model mais rica e bela do planeta, estava muito infeliz, e nada garante que isso tenha mudado.
Por que os símbolos e ídolos ficam famosos, ricos, são bonitos, fortes e poderosos, registram uma trilha de desgraças e conseguem transformar a virtude de um forte talento, de uma vocação, de um brilho de um inegável “dom” em uma auto-destruição ?
Convivi no inicio da minha carreira com potenciais grandes artistas, personalidades de um talento profundo no campo das artes. Nenhum deles superou os difíceis degraus de uma carreira de sucesso. Abandonaram, foram fazer outras coisas. Não perseguiram o chamado das vocações recebidas. Também estão infelizes. Para os que deixam as trilhas é sempre válido relembrar, se não assumimos o compromisso com nosso diferencial e missão de vida, os caminhos são tantos que , mais cedo ou mais tarde acabamos por andar em círculos, num labirinto de descaminhos.
Como aprender a se perder, sem abandonar o grande norte? Por que nossos ricos, famosos e que tem tudo o que bilhões do planeta terra gostariam de ter sofrem tanto, fazem sofrer e são, na regra, exemplos de infelicidade, salvos por honrosas exceções?
Mas, e os não famosos, não ricos, não poderosos, as não belas e os não bonitos? Esses costumam sofrer porque querem ser como os primeiros: ricos, belos, famosos e poderosos, para então desdenhar disso tudo e sofrer por outros motivos – seriam, talvez considerados “mais sofisticados”.
E a gente feliz onde anda? Eles existem. É a enfermeira Carolina que, por duas vezes, tive a felicidade de encontrar às seis horas da manhã, para um exame de sangue num laboratório de análises clínicas. Estava lá sorridente, feliz. Fiquei feliz por revê-la ali. É o senhor Nishimura, com 100 anos de idade, feliz na transcendência da sua obra empresarial e da Fundação que há anos cria e prepara jovens para a vida, na Jacto S/A . É a Dona Mira Falchi, que assisti dias atrás inaugurando um centro especial para tratamento de queimaduras no Hospital São Paulo. A sua ONG IPQ, lutou e realizou a obra. Felicidade é o que se via ali, em todos os envolvidos. Felicidade é o que vemos na Dona Jô Clemente, fundadora e presidente de honra da APAE. Felicidade é o que recebemos do Sr Mindlin, ex empresário, amante apaixonado pelos livros. Feliz é o maestro João Carlos Martins, um superador de talento infinito. Felicidade é o que continuamos colhendo da obra de Monteiro Lobato, da literatura de Machado de Assis, que afirmou :“a arte de viver é extrair o maior bem do maior mal” . Felicidade é o que extraímos de Alexander Fleming que descobriu a penicilina, que nos salva desde então. Felicidade é o que tive ao ser salvo pela Dona Helena, minha vizinha, que estava lá, pelo Dr. Silvio Correa, médico capaz, que estava lá. Felicidade parece ser o conjunto da nossa obra humana na terra. A conseqüência, o resultado. Os frutos.
A babosa é uma planta amarga, mas de uma importância medicinal extraordinária. A babosa poderia não querer ser babosa. Poderia preferir a beleza dos lírios e ter o perfume das rosas. E se assim pensasse seria infeliz. Mas se ela souber como é preciosa e útil, não perderia em felicidade para ninguém.
O filósofo Bertrand Russel disse que felicidade existe, quando superamos a nós mesmos, como foco e centro da vida. Quando nossa vida é consciente de estar a serviço de causas maiores.
É isso aí. Talvez nossos ídolos se esqueçam das missões superiores e morram traídos pela auto-ilusão, dominados pelo auto-engano.
Felicidade é semear felicidade, mesmo que para isso, seu gosto não seja doce como o mel e pareça mais com a geléia real que sustenta a abelha rainha.
Jose Luiz Tejon é Mestre em educação e cultura pela Universidade Mackenzie, Professor de pós graduação da FGV e ESPM de São Paulo e autor de 12 livros entre eles, A Grande Virada, publicado recentemente pela editora Gente.

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Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.
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