Trabalho mais Atitude é igual a Desenvolvimento Humano

As escadas escuras de um antigo prédio no bairro do Bom Retiro, em São Paulo, não revelam nem um pouco da vibrante combinação de cores nos três andares que abrigam a Oficina de Artes Boracea, organização não governamental formada por ex-moradores de albergues para pessoas sem residência fixa ou em condição de risco. Páginas do Diário Oficial são transformadas pelas mãos de 12 artesãos em painéis, luminárias, acessórios de moda e formas lúdicas para decoração infantil. A sofisticação e a qualidade das peças devolveram aos membros da ONG independência financeira, casa, autoestima e dignidade. O auxílio do Instituto Fazer Brasil, entidade sem fins lucrativos focada na exportação de artesanato brasileiro, abriu as portas do mercado externo e levou os produtos até uma das mais luxuosas lojas de departamentos do mundo, a Bergdorf Goodman, na 5ª Avenida, em Nova York.
O sucesso da Oficina de Artes Boracea e de outras 22 comunidades de artesãos de nove estados brasileiros passa, em grande parte, pelo apoio oferecido pela socióloga Walkiria Dutra, 63 anos, e por outros quatro funcionários do Instituto Fazer Brasil. Os sete anos de trabalho como pesquisadora do Movimento Brasileiro de Alfabetização (Mobral), projeto do governo federal nas décadas de 1970 e 1980, foram a inspiração para ela não se acomodar com a aposentadoria. ‘O contato com as pessoas necessitadas me sensibilizou muito.’ Em 2004, fundou com a amiga e pedagoga Meire Beraldo, 60 anos, o Instituto Fazer Brasil, com o intuito de ‘fazer algo de útil pelos outros e devolver um pouco do que têm à sociedade’.
Em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), o instituto leva as peças produzidas pelos grupos para feiras de negócio internacionais, faz todo o trâmite da exportação e ainda investe na capacitação técnica e de gestão das ONGs. Cerca de 50% dos custos de participação nos eventos ficam por conta da Apex, que paga o espaço físico, a montagem dos estandes, a comunicação visual, o material promocional e os intérpretes. ‘A liderança do Fazer Brasil, seu comprometimento com pessoas de baixa renda e a qualidade dos produtos para exportação foram fundamentais para fecharmos parceria com eles’, afirma Nelma Vieira, gestora dos projetos de artesanato da Apex. Hoje, o trabalho realizado pela equipe de Walkiria beneficia 422 pessoas, direta e indiretamente. Em 2008, US$ 366.171 foram exportados para 17 países, entre eles, Áustria, Estados Unidos e Japão.
No primeiro andar do prédio escuro do Bom Retiro, que faz as vezes de sede da Oficina de Artes Boracea e também de residência para cinco dos 12 artesãos do grupo, quem conta a história de superação é Márcia Alves, 56 anos, presidente da entidade. Uma das fundadoras da ONG, ela assistiu ao surgimento da oficina quando chegou de Brasília, em 2005, com o sonho de vender seus quadros e ser entrevistada pelo apresentador Jô Soares. Os planos não deram certo e suas economias terminaram rapidamente. Sem ter para onde ir, abrigou-se nos espaços mantidos pela prefeitura e encantou-se com o trabalho iniciado pela designer Adriana Yazbek no Albergue Boracea. ‘Aproveitei a tradição dos albergados com artesanato em jornal para criarmos algo diferente’, conta a designer, especialista em cores.

Este artigo pertence ao Caminhando Junto Blog.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.