A cerimônia acontece no coração

A brisa fria anuncia que a jornada esta no fim, após quase uma semana a grande montanha recebe o guerreiro em seu topo. Em poucas horas, atingira o ponto mais alto e sagrado, de onde a visão de sua aldeia será apenas um pequeno ponto em todo o vale.

Por toda a parte é possível ouvir o barulho de água correndo, o fim do inverno já se anuncia e o frio vai se despedindo da grande montanha, os cursos d’água vão ganhar força mais abaixo e os rios levarão vida e esperança para plantações, rebanhos e aldeias. Mas o guerreiro não veio de tão longe para admirar o degelo, ele tem uma missão especial, que se repete a cada ano e é seguida por cada chefe. Seu pai veio antes dele, como o pai de seu pai também, este é o primeiro ano que ele vem.

O guerreiro ainda não sabe o que vai fazer quando chegar ao topo, os chefes nunca dizem o que os encontra lá em cima, mas todos sabem que o futuro depende deles. Ao pensar em si como o chefe de seu clã, recorda a recente batalha. Os invasores chegaram de surpresa, usando as tempestades de neve para encobrir os rastros, atacaram com selvageria e muitos de sua tribo foram mortos, seu pai estava entre eles. Mesmo velho, lutou com bravura para defender sua gente, seu exemplo inflou os espíritos de todos os guerreiros e a batalha foi vencida.

Agora, ainda antes que a saudade do pai torne-se suportável, ele já tem que assumir sua posição de chefe e ir à montanha sagrada. A cada ano, nesta mesma época, retornará para a cerimônia, talvez nas próximas não se sinta tão inseguro. Não sabe se será testado por gigantes do gelo ou tentado por espíritos sedutores, nem mesmo sabe que tipo arma deve levar. Na dúvida, trouxe seu velho machado de guerra e a espada de seu pai.

Então, finalmente, a montanha o recebe em seu topo. Impossível alguém em sua tribo conseguir vê-lo no alto, tão longe ele está. Mas ele sabe exatamente onde está sua gente, sua família, seu coração. Ele conhece cada rio que corta o vale, ao longe vê uma mancha negra que se move com preguiça, são os búfalos pastando a grama verde que já brota após a neve. Percebe a cor ocre da terra sendo preparada para o plantio do trigo, em breve as árvores do bosque próximo da aldeia estarão cheias de frutos para a alegria das crianças. Mais perto da montanha, o grande lago brilha como se fosse de prata, lá, ele e os amigos pescam e nadam na água fria.

Por um instante, fecha os olhos e enche os pulmões com o ar frio da montanha, uma brisa que reconforta e acalma. Então, se lembra da razão de estar ali e se permite ficar contrariado por um lugar tão bonito ser um local de batalha. Nesse momento, percebe que desde que chegou uma mulher o observa sentada numa pedra. “O que faz aqui, mulher?” a fala firme tenta esconder a surpresa.

“Acalme-se guerreiro. Eu o esperava, mas pelo modo como segura seu machado, aguardava um adversário mais forte, não é?”
“Na verdade, não sei o que deveria encontrar aqui. Vim preparado para um combate, mas apenas imaginei que seria um teste dos deuses.”
“Quando chegou aí na clareira, seu coração não pensou em batalha…”
“É verdade. Ao olhar para o vale, pensei apenas em coisas boas. Mas aprendi que estas coisas, precisam ser defendidas e muitas vezes, a batalha é inevitável.”
“Tem razão e sei que tem bravura para defendê-las quando for necessário. Mas não aqui. A cada ano deverá voltar apenas para se lembrar do que realmente importa.”
“Como assim? É você quem eu devo encontrar?”
“Eu estarei sempre de forma oposta ao que seu coração esperar. Se pensar em um adversário, estarei como esta frágil mulher. Não tenho forma definida, meu nome é Esperança. Agora, olhe novamente para baixo e me diga o que vê.”
“Não preciso olhar novamente para dizer. Vejo o vale onde cresci, onde meus filhos vão crescer. Onde meu povo vive há muitas gerações. Um lugar cheio de vida, muita água, terra fértil, muitos animais. Um campo onde o Sol colore as plantas e dá vigor aos alimentos.”
“Uma bela visão. Guarde-a com você. Ao acordar, a cada dia se lembrara dela e saberá o que deve ser feito. E quando for necessário defende-la a lembrança vai ficar mais forte em sua mente. Também quando for necessário animar o espírito de sua gente, saberá como descrever sua terra. Olhe mais uma vez, sinta o perfume das flores trazido pelo vento, o calor do Sol e volte para casa.”
Surpreso o guerreiro olha mais uma vez para o vale, volta-se para a mulher e pergunta: “Só isso? Esta é a cerimônia?”
“Sua mente jovem espera sempre desafios complexos, mas seu coração é sábio e sabe quais as lições importam realmente. Este ano está acabando e um novo está nascendo. Ao fim dele, voltará aqui para ver mais uma vez por que luta todos os dias. Ao recordar o que é valioso, seu coração espalha desejos de paz, amor e união. A cerimônia acontece em seu coração. Agora é hora de partir. Eu estarei esperando por você ao fim do próximo inverno.”
Sem olhar para trás, o guerreiro começa a descida, com energias revigoradas, sua alma está leve e sua mente ainda passeia pelo vale, onde logo encontrará as pessoas que ama. Seu coração lhe diz que desta vez ao abraçá-las terá uma sensação ainda mais forte. E quando esta sensação começar a se enfraquecer, já será hora de voltar e renovar sua fé no futuro.


Este artigo pertence ao Caminhando Junto Blog.
Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.