A crise financeira e o pastel de farinha de milho

Todos os dias aquele senhor acordava bem cedo para abrir o pequeno comércio a beira da Rodovia Fernão Dias, uma das mais movimentadas do Brasil, com 50 mil veículos trafegando por dia. Seu pastel de farinha de milho era famoso nas redondezas, os fregueses diziam que o tempero do recheio era inigualável, o que o deixava muito feliz. A iguaria é típica do Sul de Minas Gerais e mostra a criatividade dos imigrantes que trouxeram as muitas receitas de pastel, mas não encontraram o trigo por aqui, que acabou sendo substituído pelo milho.

Enquanto preparava tudo na cozinha, os filhos ainda dormiam. Quando despertavam para ir à escola, o café já estava pronto e o pai já tinha saído para o trabalho. A placa colocada às margens da Fernão Dias dizia: Pastel como as avós faziam. A frase sempre despertava a curiosidade dos turistas que acabavam conquistados pelo quitute. Na verdade, ele tinha aprendido a receita com a mãe, desde garoto ficava olhando o preparo de cada ingrediente. Mas ele já tinha percebido que os fregueses gostavam mesmo dos causos, da boa conversa mineira, então ele sempre tinha uma historinha guardada no bolso do jaleco, claro incluindo o pastel de farinha de milho.

Com esta rotina bem simples, construiu uma casa modesta, mas confortável e pode pagar os estudos de dois filhos em escolas particulares. O maior orgulho foi ver o filho mais velho passar no vestibular de uma universidade federal, sentimento que se misturou à saudade ao vê-lo entrar no ônibus para a cidade grande.

O pouco dinheiro não permitia que o filho visse a família com freqüência e logo arrumou trabalho na capital, assim as visitas ficaram ainda mais distantes. Os anos passaram e a faculdade entrou na reta final e o rapaz foi levar os convites para a formatura.

Ao chegar perto de casa, viu as várias placas espalhadas ao longo da rodovia apregoando o pastel. O pai estava recebendo mercadorias, num volume muito maior do que o que ele recordava, o movimento tinha crescido, o comércio tinha melhorado, já servia café expresso, pão de queijo com catupiri e outras delicias mineiras.

Entretanto o filho não compartilhou o otimismo do pai. Foi logo dizendo que o mundo estava passando por uma grave crise, as empresas estavam demitindo, falindo… O pai ficou pensativo, o filho estava terminando a faculdade, falava dois idiomas, tinha um emprego bom e sabia tudo pela internet. Sabia das coisas.

Orientado pelo filho, diminuiu as compras, tirou algumas placas, demitiu dois funcionários e cortou os gastos. O movimento caiu e logo ele sentiu a diminuição da receita. E pensou como o filho era inteligente, realmente uma benção tê-lo ouvido.

Em 1980 o papa da Administração, Tom Peters escreveu o livro Vencendo a Crise listando 15 empresas modelo em seus nichos de negócio. Hoje, 11 delas não existem mais. Errou Peters? Não, quem vacilou foram as empresas. As receitas do passado não servem mais numa economia tão rápida. Trocando em miúdos, o consumidor está mais exigente, com menos dinheiro para gastar e com amplo acesso à informação. Neste cenário há duas maneiras de lidar coma crise: como o estudante que sabia de tudo, permitiu que idéias derrotistas o impregnassem e esqueceu de trabalhar. Ou como o pai que levantava cedo, acreditava no sabor de sua receita feita com todo carinho para encantar e trabalhava com afinco.

Qual dos dois personagens é você? E para não deixar ninguém na vontade, segue a sugestão de receita do Pastel de Farinha de Milho.


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Plágio é crime e está previsto no artigo 184 do Código Penal.